quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

[Resenha] Laurentino Gomes - 1808

A história da História.
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1808Sempre fui fascinado pela história do nosso país e a disciplina homônima me chamava atenção desde o Ginásio, quando comecei a apreciá-la de um jeito diferente. O período denominado "Brasil Império", sem dúvidas, é o meu predileto e aproveitei minha última visita a Petrópolis para apostar em uma leitura que almejava há muito tempo: "1808". O exemplar pertence à minha mãe, somado ao nosso acervo graças a uma antiga colega de trabalho e atual amiga da família, que o deu de presente. E a leitura tão ímpar de uma história em relatos acabou por ser bem mais do que dizem as línguas portuguesas por aí.

"1808" relata a descolonização do Brasil, desde a fuga da Família Real de Portugal à Independência após a volta de Dom João VI às terras lusitanas, dando aos personagens de um dos momentos históricos mais importantes de nossa histórias a dimensão mais correta possível dos papéis que desempenharam duzentos anos atrás. E afirmo "relata" porque é totalmente distinto do que estamos acostumados a ler no aspecto narrativo, já que se trata de um livro-reportagem, conclusão de mais de 10 anos de investigação jornalística. A proposta de Laurentino em desmistificar o que nos foi ensinado nos colégios de uma maneira tão taxativa e pré-condimentada, sem cair nos enfadonhos, é interessantíssima.
Napoleão reagiu decretando o bloqueio continental, medida que previa o fechamento dos portos europeus ao comércio de produtos britânicos. Suas ordens foram imediatamente obedecidas por todos os países, com uma única exceção: o pequeno e desprotegido Portugal.
A leitura do estilo não é exatamente cansativa, mas quando não se está acostumado a tal - como no meu caso -, a saudade de uma boa e velha narrativa usual surge cedo ou tarde. A quantidade de informações é absurda, porém não se mostra necessário retê-las frescas em sua memória, logo não se preocupe. Não é uma nova versão dos fatos, é a mais original e verossímil concebível pelo que pude constatar com minha leiga sabedoria histórica, entretanto não são poucas as novidades daquilo que nos foi omitido. É uma experiência tremenda para aqueles que buscam um conhecimento maior sobre esse período tão recheado da biografia de nossas terras tupiniquins. E não se engane, "1808" não é uma obra para quem busca tão somente o entretenimento.
Estava igualmente reduzido à condição de peça menor do grande tabuleiro de interesses das potências europeias. Como um avestruz que esconde a cabeça na terra na tentativa de ignorar o perigo, procurou inutilmente manter uma política de neutralidade em relação aos seus vizinhos, mais e poderosos.
Quando estamos estudando História, costumamos pontuar cada personagem com uma aparência, um jeito de ser e uma caracterização em nosso consciente, como se estivessem limitados àquilo. Com a leitura, notamos que eles são nada menos que pessoas comuns - ou não tão comuns - que vão além daquilo que se escreve ou ilustra sobre eles. Por exemplo, Pedro Álvares Cabral. Ouvimos seu nome e já somos transportados à "descobridor", "navios", "Brasil', "escambo". Quem poderia saber se ele não tinha um desejo de ser um laçador de cavalos ou que apreciasse quadros de natureza morta? É disso que estou falando, de descobrir que as figurinhas que montamos ao passar das séries são muito mais do que os livros de História podem contar. Dom João VI não era apenas um príncipe regente bonachão e que tinha medo de trovoadas, assim como Carlota Joaquina não era especificamente a ninfomaníaca interesseira que os filmes mostram. Um bom efeito da obra sobre mim foi exatamente isso, libertar minha mente para os estereótipos individuais que teimamos em criar para cada figura histórica.
Os perigos eram tantos que a Marinha britânica, então a mais experiente, organizada e bem equipada força naval do mundo, considerava aceitável a média de uma morte para cada trinta tripulantes nas viagens de longo percurso. Por essa razão, quem partia tinha o cuidado de organizar bem a vida e se despedir dos parentes e amigos. A chance de nunca mais voltar era enorme.
Conhecer mais do Brasil e, principalmente, do Rio de Janeiro e seus hábitos coloniais quase justificam certos problemas urbanísticos contemporâneos, e também outros fatos que não se incluem nessa área, tal qual o bom humor carioca em lidar com os ocasos e adversidades impostas. De suspeitas mórbidas a ênfases caricatos, Gomes revela uma história por trás daquela já foi contada, onde não só a nobreza conta aos olhos do leitor. Muitos são os personagens e relatos que demonstram a realidade por pontos de vista totalmente diferentes, de nacionalidades e classes sociais divergentes, arquitetando uma inteligente rede de achados onde pescamos o que queremos. Laurentino coloca sua marca no texto ao mesmo tempo que o neutraliza - ou não - indicando o que historiadores e personagens da época achavam do mundo, de modo que escolhemos no que tomar partido ou o que levar em consideração por nossa conta.
Imagine-se o tormento das centenas de passageiros que apinhavam o convés dos navios: dez dias sob o sol equatorial, onde as temperaturas em dezembro chegam a 35 graus centígrados, sem o sopro de uma mísera brisa para aliviar-lhes o sofrimento.
A obra do jornalista não só preza pela qualidade como pela acessibilidade, sem termos excessivamente acadêmicos ou que necessitem da leitura-irmã de com um dicionário. É um meio do próprio brasileiro saber melhor a história da sua pátria - e consequentemente, sua história em si - sem precisar recorrer a longas pesquisas ou resumos inconclusos. A experiência flui perfeitamente, diferente de outros livros do gênero que provavelmente se mostrariam rebuscados para o público procurado. Curiosidades apresentadas são irrelevantes para o entendimento do conteúdo, porém válidos para a compreensão de como a sociedade da época funcionava. E para os mais exigentes - como a minha ex-professora de História -, o autor oferece uma suficiente bibliografia ao final do texto.
Em muitos casos, a liberdade era um mergulho no oceano de pobreza composto por negros libertos, mulatos e mestiços, à margem de todas as oportunidades, incluindo educação, saúde, moradia e segurança - um problema que, 120 anos depois da abolição oficial da escravidão, o Brasil ainda não conseguiu resolver.
É extremamente complicado opinar sobre um estilo tão ímpar e o faço pela minha obrigação psicológica de compartilhar minha opinião como rito de passagem de um livro para outro. Se eu acho que resenhas são incompletas se comparadas ao conteúdo dos livros sobre quais elas falam, isso se intensifica quando falo de "1808". É, como na grande maioria de vezes, ler para saber.
Nos livros, crônicas e filmes que inspirou, Carlota Joaquina aparece como uma esposa infiel e uma mulher feia, maquiavélica e infeliz. Há suspeitas, mas nenhuma comprovação, de que realmente tenha sido infiel. Feia, maquiavélica e infeliz, com certeza foi.
Título: 1808.
Autora: Laurentino Gomes.
Editora: Planeta.
Número de Páginas: 408.
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Obs.: Estou optando pela inserção da sinopse do livro de que falo entre os primeiros parágrafos das resenhas. É uma mudança na estrutura das análises e aguardo o feedback de vocês. Encontro-me em um momento de intensa reflexão sobre o futuro do blog. Qualquer parecer ou sugestão será bem vindo.

9 comentários:

  1. Maristela G Rezende20 de dezembro de 2012 05:19

    Li esse livro no início do ano e gostei muito. É gostoso a gente saber mais um pouco da nossa própria história e não aceitar apenas aquilo que nos é apresentando na escola de forma tão acadêmica. Parabéns por trazer esse livro que para muitos, é totalmente desconhecido.

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  2. Assim como você sempre amei história, não só a brasileira, mas tudo que envolve o mundo em que vivemos. Gostei muito do seu post, eu já conhecia o livro, mas não sabia exatamente como ele era, mas depois de ler suas impressões a respeito dele fiquei bastante interessada! Mais um livro para minha lista de desejos!

    Beijos e até mais ^^

    http://kastmaker.blogspot.com/

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  3. Não duvido que seja maravilhoso, bem escrito esse livro!

    Porém, amoooo de paixão história e cursei até o 5 período.

    Ao contrário de vc eu não gosto de história do Brasil, até gosto, depois de já ter lido tudo de história de outros países, idade antiga e média. Ou seja, nem tão cedo pego pra ler. (rsrs)

    Apesar disso, estou enlouquecida com a obra de Érico Veríssimo uma parte da história do Brasil vista a partir do sul, tinha que ser colonização europeia. (rsrs) Chama-se "O Tempo e o Vento" Já é o desafio para 2013.



    Por falar nisso se não leu "Olhai os Lírios do Campo" fica a dica tb do EV.
    Abç e
    boas leituras!!

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  4. Eu também adoro história e foi minha segunda opção quando prestei p. UERJ, não passei também, diga-se de passagem, kkk. Mas o amor continuou. A história do Brasil nunca me fascinou tanto quanto parece a você, mas é sim muito legal. Esse livro me deixava curiosa por mostrar mostrar mesmo esse lado diferente dos "personagens" que conhecemos nas aulas, rs. Ainda quero ler um dia, mas não é nada que eu vá enlouquecidamente atrás para conhecer nem nada. Acho que tá mais para quando eu tiver nada de incrível pra ler (difícil, han) e ai pegaria, até mesmo porque não o tenho, haha.
    A resenha ficou boa! Gostei mais assim com a sinopse incluída porque agora EU LI! HAUHAUAHAUHAUHA


    Beijos, Nanda

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  5. Resumiu bastante dos meus sentimentos quanto ao livro, Maristela! Eu é que agradeço por compartilhar conosco sua opinião sobre ele, um beijo!

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  6. Fico feliz de ter despertado o seu interesse, Gih! Espero que consiga lê-lo o quanto antes, é uma ótima experiência. Obrigado pelo comentário e volte sempre :3

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  7. Poxa, eu sou fascinado pela História do Brasil, mas sou totalmente aberto a saber mais sobre outras nações também. Não conhecia essa obra do Veríssimo - infelizmente nunca li nada dele -, porém vou pesquisar sobre esse "Olhai os Lírios do Campo". Obrigado pelas indicações, Orquidea, um beijão e volte sempre (:

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  8. Seus comentários são os melhores, Nanda, morro de rir com sua espontaneidade xD História SERIA minha segunda opção, mas não quero nada com o campo de lecionar. Sim, gosto muito da História do Brasil - principalmente o período imperial. Petrópolis é a minha cidade do coração, como Nova Iorque e Londres <3 - e acho "1808" uma ótima introdução para quem quer saber mais sobre ela. E você NUNCA vai ficar sem nada para ler, não enquanto for parceira da Novo Conceito, acredite! Que lindo você lendo a sinopse, fica até mais bonita dentro do texto. Qualquer coisa eu te empresto, se quiser dar uma variada nas leituras. Um beijão e obrigado por sempre estar aqui ;D

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  9. Oi Caíque!

    Algumas pessoas dizem que há várias coisas nele que não são verdade, mas tem outros que dizem que é uma boa obra sobra a História. Não sei em quem acreditar e tenho certeza que se der uma ou outra opinião as pessoas vão olhar torto pra mim. Esse é o problema de estudar História. rsrs

    Mas mesmo assim eu quero ler esse livro como diversão. Nada de análise historiográfica. Quem sabe um dia eu consiga arrumar um tempinho pra lê-lo?

    Bjs

    Gabi Lima

    http://livrofilmeecia,blogspot.com.br

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