sexta-feira, 23 de agosto de 2013

[Resenha] R.J. Palacio - Extraordinário

Uma leitura para a humanidade.
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- Você vai ser sempre assim, August? Quer dizer, você pode fazer plástica ou coisa do tipo? [...]
- Oi? Isso é depois da plástica! [...]
- Cara, você devia processar seu médico [...]

ExtraordinárioDepois de minha última e vergonhosa experiência de leitura, eis que tirei da estante uma obra que me espera desde dezembro de 2012. "Extraordinário" foi um presente de fim de ano da nossa parceira Intrínseca, em um kit espetacular e que hoje, após tê-lo lido, faz todo o sentido. Posso dizer que tal obra foi a "cura" que eu precisava, por mais irônico que isso soe dentro da realidade de R.J. Palacio. Em meio a nostalgia, lágrimas e emoções afloradas, a autora me fez criança e ainda estou sem palavras para descrever o que sua narrativa me fez sentir. Nem todas as palavras do mundo proporcionariam-me oferecer 5% do quanto a estória de Auggie mexeu comigo. Desculpem-me  desde já por isso.



Talvez a única pessoa no mundo que percebe o quanto sou comum seja eu. Aliás, meu nome é August. Não vou descrever minha aparência. Não importa o que você esteja pensando, porque provavelmente é pior.
August "Auggie" Pullman nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso ele nunca frequentou uma escola de verdade... Até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros.
Por incrível que pareça, as pessoas achavam que uma criança usar capacete de astronauta era muito menos estranho que o meu rosto.
Primeiramente, esse já é um equívoco da sinopse. August não é um menino igual a todos outros, mesmo se não padecesse de sua deformidade facial; ele é especialmente único, um protagonista tão natural que é impossível não se afeiçoar. Sua personalidade divertida, irônica, inteligente e porque não, nerd - há referências bacanas - delimitaram-o a alguém que reconheceríamos como um inesquecível amigo cuja maneira inspiradora de ser almejamos alcançar. Notamos em sua narrativa uma linguagem de criança, sequer cândido ou infantil, sem perder a simplicidade ou delicadeza que identificamos pertencendo a alguém bem jovem. Suas características mostram o quão bem foi construído, ao longo de uma leitura em que não só aprendemos com ele, como este também está em etapa de descobertas e aprendizados sobre o mundo à sua volta. 
Elas me espiavam por trás dos cadernos ou quando eu não estava olhando. Evitavam esbarrar em mim a qualquer custo, dando a volta e pegando o caminho mais longo, como se eu tivesse algum germe que elas pudessem pegar, como se meu rosto fosse contagioso.
Percebe-se a proposta de Palacio em desconstruí-lo em simultâneo ao seu dever de construí-lo para o leitor. O equilíbrio disso forma a linha do tempo do novo e antigo Auggie e a naturalidade usada para demonstrar sua noção das próprias condições é fantástica, tanto qual não julga aqueles que reparam e falam dele. Através de suas explicações - na maioria das vezes de forma engraçada - para o motivo disso acontecer, sua humanidade é um choque no dedilhar pesado de sua realidade. Como tanto sofrimento pode dar origem a uma pessoalidade tão admirável? Talvez haja resposta na profundidade com a qual o tema é trabalhado descerimoniosamente, moldando um escrito que inquieta nossos conceitos, nossa vivência e a nossa humanidade.
As coisas que fazemos sobrevivem a nós.
A escritora foi feliz em não só usar do protagonista para aprofundar e densificar a trama, como também de outros pontos de vista, sejam familiares, amigos ou até conhecidos. É exatamente o que clamava um enredo como esse, onde a narrativa de August fora uma sutileza de pontos viscerais e as outras narrativas, vísceras com pontos sutis. De tal maneira, criou-se uma realidade a ser observada, analisada, onde conhecemos como cada tipo de pessoa vê Auggie, o mundo e a si mesmo e o total da obra é como eu puder enxergar August, a sociedade como um todo e a mim mesmo. Sutilmente genial.
Eu gostaria que todos os dias fossem Halloween. Poderíamos ficar mascarados o tempo todo. Então andaríamos por aí e conheceríamos as pessoas antes de saber como elas são sem máscara.
Os sortidos narradores são diversificados em sua própria escrita e R.J. o fez exemplarmente, contudo se eu estudasse e comentasse acerca de cada um, tornaria-se algo maçante a quem ainda não leu, além de estragar algumas surpresas. Isso me faz mal, gostaria de discursar sobre cada um dos inúmeros pontos a serem explorados, porém não há resenha que suporte tantos spoilers maquiados. Logo destacarei àquela que mais me tocou: Olivia, a irmã mais velha de Auggie - Via, para os íntimos. Seu ponto de vista é o primeiro depois de seu irmão e foi o abalo inicial, já que não esperava por isso. Seus dilemas fogem dos problemas usuais da adolescência, de quem está começando o Ensino Médio e ver todo o mundo de August por seus olhos me faz lacrimejar só de relembrar. A consciência da falta de atenção acarretada pelos problemas de seu irmão a tornaram um personagem complexo, profundo, até mesmo pesado. Foram 18 páginas que ultrapassaram a carga emocional de tantos e tantos livros que vejo sendo publicados por aí.
A mamãe e o papai sempre disseram que eu era a menininha mais compreensiva do mundo. Mas a questão é que eu apenas entendia que reclamar não adiantaria nada. Eu vi August depois das cirurgias: seu rostinho inchado e enfaixado, seu corpinho cheio de cateteres e tubos para mantê-lo vivo. Depois que você vê alguém passando por isso, parece loucura reclamar por não ter ganhado o brinquedo que pediu ou porque sua mãe perdeu a peça da escola. Aprendi isso aos seis anos. Ninguém nunca me disse. Eu simplesmente soube.
18 páginas que me despertaram dó, repulsa, compaixão e ainda mais sensibilidades controversas por Via. Além e estaria estragando parte da magia do texto, por isso concluo com o seguinte raciocínio que minha mente segue martelando desde então para si tentando compreendê-la: se seu irmão caçula sofresse de uma deformidade facial de nascença, você tivesse a noção de que seus pais precisam e irão dar mais atenção para ele apesar de te amarem, assim como você o ama e compreende o que se passa, acabando por se tornar independente e desde bem pequeno resolvendo tudo por conta própria através dessa ciência da realidade em que vive; quando as coisas realmente fugissem do controle e não pudesse deixar de incomodar e reclamar, que ser humano você se tornaria? 
Ele disse que nada põe amizades tão à proa quanto o ensino médio e depois começou a zombar de mim por estar lendo "Guerra e Paz". Não de verdade, é claro, porque eu já o ouvira se gabar para as pessoas de que tem "uma filha de quinze anos que lê Tolstói".
Antes de prosseguirmos, peço que leiam abaixo com bastante atenção um trecho da descrição que Via faz da deficiência de seu irmão:
Os olhos dele ficam cerca de dois centímetros abaixo de onde deveriam, quase no meio das bochechas. São caídas, formando um ângulo acentuado, quase como se alguém tivesse aberto duas fendas diagonais em seu rosto, e o esquerdo é claramente mais baixo que o direito. E são esbugalhados, porque as cavidades oculares são pequenas demais para comportá-los. As pálpebras superiores ficam sempre meio fechadas, como se ele estivesse adormecendo. As inferiores são tão caídas que até parece que um fio invisível as puxa para baixo: dá para ver a parte inteira, vermelha, como se a pele estivesse do avesso. Ele não tem sobrancelhas nem cílios. O nariz é desproporcionalmente grande para o rosto, e meio largo. A cabeça dele é afundada nas laterais, no lugar onde deveriam estar as orelhas, como se alguém a tivesse apertado bem no meio com um alicate gigante. Ele não tem maçãs do rosto. Dois vincos profundos descem dos cantos do nariz até a boca, o que dá a ele a aparência de um boneco de cera. [...]
Enojado, horrorizado, assustado. Era como foi descrita grande maioria dos personagens que o encontraram durante a trama, antes de realmente conhecê-lo. E também me vi assim, pois é como provavelmente eu e todas as pessoas que não convivem com seres humanos com esse tipo de característica diariamente se sentiriam. Mas isso não é errado? Sentir-me de tal maneira por uma pessoa tão jovem que sofreu a vida inteira, passando por incontáveis cirurgias e que não tem culpa alguma disso e nem a conheço? Ou não estou errado, já que minha reação não passa de nada além que a natureza humana veraz e entranhada como ela é? Caro leitor, ainda não encontrei a resposta. Esse foi o tapa que R.J. Palacio deu à minha humanidade com seu texto. Perdoe-me, Auggie.
E nunca sentira aquilo: algo que na mesma hora fez com que eu me odiasse. Enquanto ele me beijava com todo carinho, tudo o que eu conseguia notar era a baba escorrendo por seu queixo. E, de repente, ali estava eu, como todas aquelas pessoas que ficavam olhando fixamente para ele ou desviavam o olhar. Horrorizada. Enojada. Assustada.
O contexto do início da vida escolar também foi nostálgico o bastante aos que amam todo o universo educacional, principalmente quando romanceado. O elenco literário é bem colocado, sem desperdícios ou embromação. A diagramação da editora apaixona com avatares dos personagens que irão narrar os pontos de vista em uma identidade visual instigadora, visto que todos são desenhos incompletos. Há citações para gostos ecléticos antes de cada parte da história que resumem poeticamente o dilema que seu narrador apresentará. Os capítulos breves e a tipografia adequada auxiliam o ritmo da leitura.
E sempre que eu o via, tentava me lembrar do que a Veronica dissera. Mas era difícil. É difícil não dar uma segunda olhada. É difícil agir normalmente quando você vê o August.
Acreditem ou não, isso é o ínfimo do ínfimo que posso denotar sobre "Extraordinário", porém já é suficiente para que alguns olhos corajosos leiam essa resenha enorme e tão, tão difícil de ser redigida. Existem fatores que somente a prosa vão transmitir, que palavra alguma poderá detalhar e que sua única reação será parar, fechar o livro e refletir sem hora para terminar. August é o amigo que quero ter sempre ao meu lado, com suas graças, perspicácia e solidariedade. Não se trata de uma obra que se possa resenhar, criticar, resumir, falar sobre, você só pode senti-la. Parafraseando Markus Zusak sobre outra história e que abrevia exatamente o que pretendi dizer aqui: "Você vai rir, vai chorar e ainda vai querer mais".
Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, por que todos nós vencemos o mundo.
Título: Extraordinário.
Autor: R.J. Palacio.
Editora: Intrínseca.
Número de Páginas: 320.
Tradução: Rachel Agavino.

14 comentários:

  1. Como foi na minha e na sua resenha, acho que todas as resenhas desse livro não poderia faltar esse quote:

    Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, por que todos nós vencemos o mundo.

    Achei perfeito, adorei a leitura. E já resenhei o livro faz alguns meses.

    Adorei o blog e já estou seguindo, quando puder retribuir ficarei muito feliz!
    Abraçossssssssss
    www.booksever.blogspot.com

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  2. Olá, Filipe! É mesmo uma citação que resume bastante da essência do Auggie e gosto particularmente dela. Obrigado por passar por aqui, volte sempre!

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  3. Ooooi :) Posso terminar esse comentário com apenas uma linha: Me empresta, já. Mas eu simplesmente não poso sair daqui sem deixar de comentar decentemente, falando da doçura e da sua escrita incrível pra essa resenha! Eu já quero tanto esse livro, nào tem ideia, rs. Sabe aqueles livros que sabemos que vamos amar antes mesmo de tê-los em mãos? É como estou me sentindo em relação ao Extraordinário! Mal vejo a hora de ler as páginas, conhecer essa diagramação e chorar, chorar muito com essa história maravilhosa! Tenho a impressão de que ela vai tocar nas feridas de todo mundo que ler de alguma forma, parece ser mesmo o tipo de livro que deixa a gente de boca aberta, página após página, e tira lágrimas mesmo na fila! rs.
    Ótima resenha, como sempre <3# Adorei!

    Beijos, Nanda

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  4. Thaynan Lira Galhardo24 de agosto de 2013 22:34

    Uma resenha perfeita, para um livro perfeito. E você usou uma frase que uso muito quando vou indicar esse livro. Auggie é especial mesmo se não tivesse deformação nenhuma. Ele é incrível e é impossível não se apaixonar por ele. Esse livro é aquele que você tem necessidade de que outras pessoas leiam... pois vc precisa conversar sobre ele, falar e expor tudo que sentiu, ou pelo menos tentar.... Amei como finalizou essa resenha... "Não se trata de uma obra que se possa resenhar, criticar, resumir, falar sobre, você só pode senti-la." Realmente, só se pode sentir... as palavras sempre fogem quando vou falar sobre ele... Parabéns pela resenhaa... e tenho certeza que vc se arrependeu de ter demorado tanto pra ler... rsrsrsr

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  5. O Augustus é um tapa na nossa cara e ao mesmo tempo um abraço reconfortante. Eu disse. Eu falei: Extraordinário modifica nossa história. ;)

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  6. Helô, você comentando aqui no blog, nem acredito *-* Depois que você me passou essa missão de lê-lo, preciso transmiti-la para todos que conheço! Obrigado por passar pelo LLM e pela indicação infalível, um bjo (;

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  7. Poxa, obrigado pelo elogio, Thaynan! É mesmo um livro perfeito e a vontade/necessidade de falar sobre ele e convencer cada vez mais pessoas a incluírem-no em sua lista de leituras e a dificuldade de comentar sobre algo que aos poucos se torna tão íntimo foi mesmo um desafio sem igual como resenhista. Se me arrependo por não tê-lo lido antes? Sim e não. Sim pelo fato que quanto antes o experienciasse, melhor seria, porém acredito que tudo tem sua hora e estou no exato momento de leituras rápidas e impactantes. Obrigado por seu comentário de imenso valor e volte sempre, um abraço :-)

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  8. Ah, pessoa, sabe que te empresto quando pedir, né? hahaha Poxa, obrigadíssimo pelas palavras carinhosas, mas devo isso ao livro, que merecia uma resenha parcialmente à sua altura. Tenho a mesma impressão de ACEDE, já sei que vou curtir e chorar antes mesmo de lê-lo, influência desses meus amigos blogueiros, sabe? xD É uma obra que subitamente se torna íntima, pois atinge bem esses pontos que todos têm e poucos comentam. Quis fazer isso na crítica, colocar esse lado meu, que rendeu um tapa da autora no meu âmago. Já anseio por sua resenha dele, um beijão e obrigado-obrigado-OBRIGADO por sempre estar por aqui ;-)

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  9. Você escreve de uma maneira incrível, Caíque, é quase como se eu já estivesse dentro do livro, mesmo sem lê-lo. E com certeza vou procurar ler.

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  10. Nossa, que magnífica essa sua impressão, Julia, cheguei a me emocionar :')
    Obrigado, de verdade. São comentários como esse, como o de todos que sempre vêm aqui deixar sua opinião no LLM, que me fazem prosseguir nessa aventura de ser blogueiro. Agradeço de verdade e torço muito para que tenha uma experiência incrível com o livro, aposte nele e tenho certeza que não irá se arrepender. Não se esqueça de voltar, grande beijo!

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  11. Oi Caíque!

    Desde a Turnê Intrínseca fiquei com vontade de ler esse livro e depois, com você falando tão bem dele, a minha vontade só aumentou.
    Pela sua resenha dá pra perceber que é um livro maravilhoso! Que descrição é essa do rosto do menino! Nem consigo imaginar...
    Excelente resenha!

    Beijos,
    Gabi Lima
    http://livrofilmeecia.blogspot.com.br

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  12. É incrivelmente poético de uma maneira tão sutil que você fica assim, se sentindo estapeado pela realidade. Aposto que vai amar, Gabi! Obrigado pelo elogio e por sempre vir aqui, um beijão (:

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  13. Nossa Caíque, foi realmente espetacular a forma como você falou sobre o livro. É impossível terminar de ler a sua resenha e não querer ler o livro. Caramba, criou uma curiosidade enorme em mim. Como se eu necessitasse desse livro AGORA MESMO. E eu realmente necessito. Quero sentir o que você sentiu lendo *O* Pq foi fantástico... E nossa, realmente, a escritora foi bem peculiar.
    Sinceramente, não sei o que dizer. Só sei que necessito. Mesmo. Fiquei sem palavras x_x


    http://recordandopalavras.blogspot.com

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  14. Obrigado de verdade pelos elogios à resenha, May. Torço para que "Extraordinário" seja uma de suas próximas leituras, assim como a de todos que passarem por aqui e sentirem essa necessidade que almejei transmitir. Sei que não irá se arrepender, principalmente no quesito de que como ele nos faz sentir. Saudades de ver sua opinião por aqui, não deixe de vir quando puder. Um beijo!

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