sexta-feira, 11 de julho de 2014

Carne, osso e palavras: há como separar a vida e a obra?

Podemos separar a cultura produzida por alguém das ações que executa em sua vida particular?
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Fonte: Camilando
Essa discussão muitíssimo interessante foi reerguida pelo escritor Damien Walter em seu blog no site do The Guardian. Acabei por me encontrar entre os debates, pois há alguns dias adquiri os livros d'As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley e tamanha foi minha surpresa ao saber de seu envolvimento perturbador nesse contexto. 

Em 2014, a escritora norte-americana já falecida foi acusada de abuso sexual por sua própria filha, Moira Greyland, que afirma ter sido molestada dos 3 aos 12 anos. Greyland acrescentou dizendo que foi uma das responsáveis por acusar seu pai, Walter H. Breen, também por abuso sexual de crianças.

Marion Zimmer Bradley
"A primeira vez que ela abusou de mim, eu tinha três anos. A última vez, doze, e eu conseguia fugir. Eu pus Walter na cadeia por abusar de um menino. Tentei intervir quando tinha 13 anos contando pra minha mãe e Lisa, e elas apenas o fizeram se mudar para seu próprio apartamento. Eu vivia parcialmente em sofás por causa da saída de medicamentos controlados, orgias e o constante fluxo de pessoas entrando e saindo do nosso "lar". Nada disso deveria ser novidade. Walter era um estuprador em série com muitas, muitas, muitas vítimas (eu dei o nome de vinte e duas aos policiais), mas Marion era de longe bem pior. Ela era cruel e violenta, assim como bastante fora de si sexualmente. Não sou sua única vítima, nem todas as suas vítimas foram meninas."
- Greyland por e-mail à escritora Deirdre Saoirse (link).

Todos sabem - ou deveriam saber - que o(a) escritor(a) que lemos nas páginas não é aquele(a) que conhecemos em carne e osso. Tanto que, diversas vezes, conhecer nossos heróis culturais é uma tremenda decepção. Uma cantora em ascensão no palco pode ser a depravada gritando obscenidades no bar. O poeta que expressa beleza nos versos talvez seja um bêbado egoísta. Logo, nós frequentemente separamos o artista do ser humano, o ícone do real. Porém, quando os atos de nossos rockstars literários ultrapassam a linha do mau comportamento, entrando na indignação moral e ilegalidade, concluir essa quebra se torna muito mais complicado - quando não impossível.

O caso relembrou acusações póstumas a outros autores, tais quais as que seguiram Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, desde que seu relacionamento com Alice Liddell - criança que inspirou suas obras - ficou sob suspeita após a publicação de uma biografia. J.M. Barrie, inventor de Peter Pan, é alvo de questionamentos há décadas acerca de suas reais intenções ao se aproximar da família Llewelyn Davies, que inspirou a criação de sua magnum opus. Bradley, aliás, possuiu vital importância à comunidade de ficção científica americana, estando por três meses dentre os bestsellers do New York Times e se consagrando uma das escritoras mais lidas no mundo todo.

E não é somente no meio literário que ficamos nesse tipo de situação. O Vaticano excomungou mais de 840 padres por alegação de abuso infantil em dez anos. Chris Brown perdeu fãs e ganhou a antipatia de inúmeros após o escândalo da violência doméstica contra Rihanna. Muitos observam que apoiá-los/lê-los afora suas posições ou atos envia uma mensagem implícita de que suas práticas são toleráveis. Ao mesmo tempo, há os que argumentam que o valor do trabalho pode ser distanciado de seu criador, logo somos capazes de reprovar o escritor sem condenar o escrito.

Eu ainda lerei As Brumas de Avalon, feito outros ledores que o farão depois de mim. Brown continuará com sua base de fãs e ouvintes cantarolando suas músicas. Católicos permanecerão indo às missas. O debate vai prosseguir e a dúvida de qual argumento abraçar, também.

"The rain it raineth every day" - Leonard C. Taylor
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Esse artigo é uma adaptação e tradução livre do texto de Damien Walter para o website do jornal The Guardian (link). Seu teor no presente blog é puramente reflexivo e não reproduz julgamentos de valor. 

4 comentários:

  1. Letícia Proença14 de julho de 2014 11:42

    Oi, Caíque!
    Gente.

    Gente...

    GENTE!

    Eu não sabia desse história o.O preciso dizer que estou em um choque que vou demorar um pouco pra digerir? Eu também tenho a série e ainda não li, mas quero muito ler...

    Não é a toa que os livros são um mundo fictício... Não é porque um autor escreve sobre serial killers que ele é mal, ou porque ele escreve fantasia e história para crianças que ele não é um pedófilo... Isso é realmente terrível.

    Imagine para os fãs quando a própria filha dela disse isso? É um baque, realmente, decepção.

    Mas parabéns mesmo pela coluna! Faltam coisas desse tipo pelos blogs literários... rs

    Bjs
    Leeh - Caverna Literária

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  2. Oi, Leeh!

    Também tive um lag desse pra entender tudo que estava acontecendo, rs. É interessante ver que uma situação tão complexa e polêmica pode gerar tantas vertentes de comoção e pensamento, como tenho visto nos comentários fora do blog sobre esse post.

    Muitos disseram que só acreditaram mesmo na história por ter sido dito pela filha. Os detalhes, tudo que ela disse... Não dá para digerir mesmo de uma hora para outra, ainda mais no meio literário que vivemos onde tudo basicamente se resume ao caráter positivo ou negativo de um livro. Acho bacana trazer esse tipo de discussão que não é fácil de escrever, ler ou mesmo interpretar.

    Obrigado por sempre comentar por aqui e pelos elogios, de verdade. Fico mais que feliz que tenha gostado do artigo. Um beijo!

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  3. Oi Caíque!
    Essa é mesmo uma discussão que dá pano pra manga, viu? É complicado você separar, assumo. Pra mim, meus autores favoritos são tão incríveis na sua vida, quanto são nas páginas que escreveram. O Biel até brinca comigo, dizendo que vou me arrepender da tatuagem no dia que o John Green tiver um escândalo na vida dele, hahaha. Isso não passa pela minha cabeça, mas é tão possível, afinal, são pessoas e podem errar, ok. Mas quando se passa desse ponto, como você falou, é complicado. Não sei como eu leria um livro pensando nas coisas horríveis que a pessoa que me passa aquelas palavras fez... Pode ser meio idiota, por essa questão do valor da obra, mas eu não sei se conseguiria separar facilmente. Acho que nesse caso, leria as Brumas sempre procurando uma informação, um trecho que remetesse a esses abusos, entende? Não seria a mesma leitura pra mim =(


    Beijos, Nanda

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  4. Também acho bem difícil separar em situações tão extremas como essa, Nanda. Creio que o João Verde não irá nos chocar com algo desse tipo, pelo menos não agora, rsrs. Espero me posicionar melhor quando ler pelo menos o primeiro livro d'As Brumas, mas admito não ter pensado em como seria o aspecto da leitura em si depois de tudo isso. Obrigado por comentar, um beijo!

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